Karim é dono de uma trajetória respeitadíssima, que inclui as obras-primas "Madame Satã" (2002), "Céu de Suely" (2006), e "Alice", a série mais interessante da vida da HBO . Inspirado na canção "Olhos nos Olhos" de Chico Buarque, 'O Abismo Prateado' se passa no Rio de Janeiro e tem a tão falada devastadora atuação de Alessandra Negrini (e o medo da canastrice?) no papel de Violeta, uma mulher de classe média abandonada pelo marido.
Nascido em Fortaleza e morador de Berlim, na Alemanha, Karim, 47, vai e volta da Europa várias vezes por ano. Ele gosta de estar fora de sua zona de conforto e diz que se sente à vontade demais no Brasil. "Gosto de me sentir menos à vontade, de me sentar num lugar que não seja minha casa, de me sentir meio estrangeiro, não falar completamente a língua e não entender completamente os códigos. Acho que fui criado para virar mundo", revela.
Karim Aïnouz
- Filho de mãe cearense e pai argelino.
- Karim Aïnouz é formado em arquitetura e urbanismo pela Universidade de Brasília. Tem mestrado em história do cinema pela Universidade de Nova York, se especializando em teoria cultural pelo programa de estudos independentes do Whitney Museum of American Art.
- Ganhou uma bolsa do New York State Council on the Arts e do Jerome Foundation for the Arts.
- Foi também convidado como artista residente pelo centro de mídias do New York Film Video Arts e pelo Banff Centre for the Arts (Canadá).
- Aïnouz trabalhou como assistente de montagem e direção em vários longas, entre os quais: Poison (Haynes, 90), Swoon (Kalin, 91) e Postcards from America (McLean, 93).
- Foi também um dos co-roteiristas de "Abril Despedaçado", de Walter Salles.
- "Madame Satã" é seu primeiro longa-metragem. Produzido com o suporte do Hubert Bals Fund do Festival Internacional de Filme de Rotterdam. Com o prêmio da Holanda para desenvolvimento de roteiro, realizou uma intensa pesquisa - vasculhou o arquivo nacional, fontes jurídicas, entrevistou pessoas que o conheceram na Lapa e na Ilha Grande, onde ficou preso. Foi também à cidade em que nasceu no agreste de Pernambuco e ao cemitério onde dizia que estava o túmulo da mãe dele. A MPB dos anos 20 e 30 também foi uma fonte importante para entender a época, parece que a música Mulato Bamba, de Noel Rosa, foi feita para ele.
- Seus curtas "Paixão Nacional" e "O Preso" e seu documentário "Seams" foram considerados inovadores, sendo exibidos em mais de 50 festivais no Brasil e no exterior, incluindo: Rotterdam, Oberhausen, Londres, MoMa (NY), Vancouver, e Altanta.
* musica_______
"Nos meus trabalhos anteriores, a música tinha uma importância muito grande, mas entrava de uma forma meio intuitiva. Aí decidi fazer o contrário, criar um filme em cima de uma canção, e 'Olhos nos Olhos' é uma verdadeira 'love song'. Comecei a imaginar quem seria a protagonista da música e aí surgiu a personagem da Violeta. Minha história é baseada em uma carta de amor que virou uma canção com o Chico, e a Violeta seria a autora da carta. O filme não conta a história da música, se passa antes dela."
Karim, Alessandra Negrini e Chico Buarque
Ouvir os filmes de Karim Ainouz é passear pela contra-música. Karim faz o expectador lembrar da música para lembrar do filme e usa desde instrumental alemão à versões kitsch's de forró eletrônico, e ainda resgata canções perdidas da época de ouro do samba. A música é para ser ouvida, assim como o filme deve ser assistido, com generosidade, num retrato da complexidade de significados de cada narrativa. "É impressionante a quantidade de versões de músicas americanas transformadas em forró ou no chamado tecnobrega. Acho uma provação pegar um hit americano e transformar em outro produto, muitas vezes com letras totalmente diferentes das originais. E por que não chamar esta música de autêntica na cultura nordestina?" indaga Karim sobre essa moderna e muitas vezes ignorada antropofagia do Nordeste brasileiro. O que Karim faz com a música, com a imagem e com o texto é algo extremamente único, ele tece originalidade.
* espaço______
"Sempre tive dificuldade em fazer uma história de amor no Brasil por causa da diferença de classes. Minha geração achava que falar de elite e classe média era coisa de novela, cinema deveria abordar o 'real'. 'Abismo Prateado' se passa no universo dos versos do Chico, aquela classe média de Copacabana. É um universo que não está presente nos meus outros filmes, e era um mundo que eu via muito pouco no cinema brasileiro e com o qual eu tinha uma vontade muito grande de trabalhar."
"Foi a primeira vez que filmei no Rio. Foi incrível, tem umas intersecções muito únicas lá. Pode ser assustador, não porque tem gente que te assalta, mas porque a geografia é assustadora. Já fiz filme rural, mas não é muito a minha. Adoro cidades, jamais conseguiria viver em um lugar que não fosse uma cidade grande."
Uma das características mais evidentes no trabalho de Karim Ainouz, é a sua relação com o espaço. Tanto no cinema como na série para televisão a relação das personagens com a cidade, revela um interesse nato do autor. Na fotografia, a cidade, a construção, e o urbanismo, como o rural e o decadente são sempre destacados por imagens que fazem com que cenário e corpo dialoguem. O deslocamento, o centro e a periferia, são o começo de uma idéia para a personagem. "Como é nascer em Fortaleza e querer morar em Tóquio? Metaforicamente o filme é a história de alguém que chega em um lugar ou vai embora de um lugar", declara Karim Ainouz.
A questão do êxodo para cidade é retratado em vários dos seus filmes. Em "Madame Satã", o primeiro longa, isso fica subentendido, já que o filme narra a história de João Francisco dos Santos, transformista brasileiro e personagem emblemático da vida noturna e marginal do Rio de Janeiro na primeira metade do século XX. Jovem, João Francisco dos Santos vai para Recife, onde vive de trabalhos sazonais e, posteriormente, muda-se para o Rio, indo morar no bairro da Lapa. Tanto em "O Céu de Suely", o segundo filme, quanto na série "Alice" para o canal de televisão HBO, a cidade é o elemento que gera o desejo das personagens, mas com diferentes narrativas. "Alice" é a crônica de uma menina que está indo para uma grande metrópole, descobrindo aventuras e desventuras, já "O Céu de Suely", é uma história imaginada, temos uma menina que já passou pela cidade e retorna ao interior. Mais do que a questão da cidade, Karim denuncia como as persoagens se deslocam e se despacializam, como se sai de um lugar para ir para outro, e que desejo é esse.
Uma das características mais evidentes no trabalho de Karim Ainouz, é a sua relação com o espaço. Tanto no cinema como na série para televisão a relação das personagens com a cidade, revela um interesse nato do autor. Na fotografia, a cidade, a construção, e o urbanismo, como o rural e o decadente são sempre destacados por imagens que fazem com que cenário e corpo dialoguem. O deslocamento, o centro e a periferia, são o começo de uma idéia para a personagem. "Como é nascer em Fortaleza e querer morar em Tóquio? Metaforicamente o filme é a história de alguém que chega em um lugar ou vai embora de um lugar", declara Karim Ainouz.
A questão do êxodo para cidade é retratado em vários dos seus filmes. Em "Madame Satã", o primeiro longa, isso fica subentendido, já que o filme narra a história de João Francisco dos Santos, transformista brasileiro e personagem emblemático da vida noturna e marginal do Rio de Janeiro na primeira metade do século XX. Jovem, João Francisco dos Santos vai para Recife, onde vive de trabalhos sazonais e, posteriormente, muda-se para o Rio, indo morar no bairro da Lapa. Tanto em "O Céu de Suely", o segundo filme, quanto na série "Alice" para o canal de televisão HBO, a cidade é o elemento que gera o desejo das personagens, mas com diferentes narrativas. "Alice" é a crônica de uma menina que está indo para uma grande metrópole, descobrindo aventuras e desventuras, já "O Céu de Suely", é uma história imaginada, temos uma menina que já passou pela cidade e retorna ao interior. Mais do que a questão da cidade, Karim denuncia como as persoagens se deslocam e se despacializam, como se sai de um lugar para ir para outro, e que desejo é esse.
* corpo______
"Violeta não é especial. Eu queria um personagem para falar da classe média, não da exceção. Ela é isso, tem 40 anos, acabou de se mudar, tem filho e um consultório. A graça é conseguir fazer um filme onde exista certa originalidade em como as experiências comuns são contadas. No exterior, você vê bons filmes que não têm nada de excepcional, com personagens comuns. A gente também pode fazer isso, acho que o nosso cinema tem que recuperar esses territórios."
Uma identidade marcante no cinema de Karim é a sua obsessão por personagens fortes, que carregam grandes e densas histórias. "Adoro fazer filmes sobre pessoas que eu gostaria de ter encontrado, ou que eu gostaria que tivessem um outro destino na vida. Gente é um bicho apaixonante". O que relaciona suas personagens é que elas vivem sem se lamentar, coisas ruins acontecem, elas passam por experiências de prova com a vida, mas em nenhum momento se lamentam. Para ele não interessa personagem entediado, isto, ele classifica como anti-cinema. "Madame Satã não teria sido um filme que eu assinaria se o personagem não tivesse saído da prisão e brincado o carnaval, se o filme tivesse terminado quando tem um crime, isso não me interessaria".
Os planos mostram cenas de um cotidiano às vezes banal, mas que no contexto da narrativa, revelam a história. Ele não vai para o melodramático, nem para o superficial, mantém distancia (e nos faz distanciar) dos seus personagens e de sua história, mas estranhamente provoca aproximação ao expectador. São situações, descrições, tomadas de consciência, respostas do dia-a-dia que se modificam aos poucos.
"A vida vai passando e parece que todo filme que eu faço fala do mesmo assunto. O abandono é um ato que permite que você se reinvente, e não que se torne vítima dele. Ele não é uma experiência paralisante, permite que o personagem se transforme. Já a questão da covardia é uma coisa engraçada. 'O Abismo' tem muito isso, acredito que seja um traço da masculinidade medrosa. Mas, ao mesmo tempo que ser abandonado não te faz vítima, abandonar também não te faz vilão. A covardia está ligada ao masculino nos meus filmes, mas não ao masculino como vilão, não quero dividir o mundo entre o bem e o mal."
O tema da reinvenção pessoal é o ponto chave na discussão sobre as personagens de Karim Ainouz. Em O Céu de Suely, o registro é realista (a começar pelo fato de que os personagens têm os nomes de seus intérpretes), e não mais impressionista. Mas a capacidade de Aïnouz para compreender a insatisfação e a inquietude permanece a mesma. Os personagens se dividem aqui entre os que cabem no quadro, como a avó de Hermila (protagonista) e seu novo namorado, e os que estão sempre escapando dos limites da tela e do foco, como a própria protagonista. Apesar da ambientação no semi-árido nordestino brasileiro, essa não é uma história de retirantes, tampouco sobre os constrangimentos financeiros que levam Hermila a criar Suely. Como Madame Satã, que tratava de um analfabeto que queria ser estrela, essa é uma história de alguém que perde o compasso - no sertão, os homens é que vão embora, não as mulheres - e se vê obrigado a tocar a própria música. Uma bela música, aliás.
Em Alice a idéia se repete, o cineasta leva para a televisão a sua enorme facilidade de conduzir uma narrativa por meio de um personagem profundamente empático. A personagem principal, Alice, sai de Palmas, capital do Estado do Tocantins, no Brasil, e vai para São Paulo, a cosmopolita cidade latino-americana. Toda a mudança é uma metalinguagem, porque tudo muda ao mesmo tempo, e Alice se altera por completo em busca de se auto conhecer. O fato é que, como em "Madame Satã" e "O Céu de Suely", a protagonista de "Alice" seduz o espectador logo nas primeiras cenas. Não por que tenha nada de especial, a princípio, mas justamente pelo contrário. Em "Madame Satã", havia a aura lendária do personagem e o interesse despertado por sua história cheia de ambigüidades. Já em "O Céu de Suely", Hermila, de início, é uma mulher perfeitamente comum. Alice também: moça, prestes a se casar com Henrique, com emprego, família e planos. Tudo isso em Palmas, cidade quase desconhecida, com avenidas que cortam planícies secas, ensolaradas e lembram uma epécie de Brasília construída fora de época. Uma reviravolta da narrativa vai jogá-la numa São Paulo tão desconhecida quanto indecifrável. É esse o ponto de partida da série, que sugere mesmo um desenrolar clichê. Sabemos que Alice vai ter aventuras amorosas variadas, vai deslumbrar-se com o movimento da metrópole e sofrer com sua dureza - e caso não soubéssemos, a campanha intensiva de lançamento nos informaria. Mas, ao mesmo tempo, como já estamos completamente caídos por Alice, queremos ver como ela, e não qualquer outra, vai passar por tudo isso. O roteiro e direção dialogam - ou não - com as referências à personagem de Lewis Carroll. Não se sabe se a Alice de Karim viaja só pelo país das maravilhas, mas prossegue através do espelho - o que, no caso da Alice carrolliana, muda tudo.
Ainouz é admirado com a redenção humana e com explosões emocionais. O sexo deixa de ser romântico e passa a ser visceral, quase violento. As drogas são socialmente aceitas e todos os protagonistas se entorpecem. Não existe bem e mal, não dá para decidir.
Para se chegar à esses personagens, Karim Ainouz tem o apoio de uma competente preparação de elenco. Trabalha sempre com a directora de actores Fátima Toledo, e molda personagem e actor numa só coisa, revelando grandes nomes da atuação. O processo de escolha passa por muito teste de elenco e mistura atores desconhecidos com atores conhecidos. Em relação aos atores e não atores, o ator dá a segurança e o não ator dá a "pureza da verdade". "No cinema tem mais tempo para improvisar, isso já define um tipo de ator, no final é o encantamento e magia", afirma Karim.
Fátima Toledo utiliza diversos exercícios para chegar ao corpo que o director pede. Desde narrativas que despertam a leveza e pureza, como "Le Petit Prince", para trazer violência - ou seja, a maldade trabalhada com o inverso - até processos de auto conhecimento do próprio actor. " Olhar para você, olhar para você com você, dizem que é torturante, mas são facetas que emergem conforme a situação pedida para dar a sensação da cena. Você fica confuso em olhar para si mesmo, confrontar com sua sombra, suportar sua sombra, é doloroso, mas é uma experiência de vida e cinema não é só um filme, é uma experiência de vida. Nada é formatado, cinema é olho e olho não se transforma e se não estiver pleno, não há verdade". Aponta Fátima Toledo sobre seu trabalho.
Por agora, Karim já trabalha na montagem de seu próximo longa "Praia do Futuro", rodado no Ceará e em Berlim, com Wagner Moura e Jesuita Barbosa. Com filmagens e financiamento nos dois países, o projeto se qualifica como bi-nacional: brasileiro e alemão. Além disso, é uma história de amor gay, entre dois personagens do filme, Donato e Karl.
Jesuita Barbosa, Karim Aïnouz e Wagner Moura
A metodologia cinematográfica de Karim Ainouz é traduzida por uma poesia íntima, arrebatadora e singela. O realizador narra histórias de personagens fortes e mergulha em seus conflitos, sonhos e desejos. Para ele, o submundo perde o prefixo e passa ser somente mundo: de vulnerabilidades, de complexidades e de beleza. Os mundos deste cineasta são de um olhar atendo para dor e a delícia de se viver num universo abandonado, mas esperançoso.
* carta_________
Escrita por Felipe Bragança, co-roteirista e assistente de direção de O Céu de Suely.
24/08/05
Iguatu, Ceará
Marina, saudades.
Não sei em quantos dias essa distância se transforma, então não sei prever
quando é que vai conseguir receber esta carta que escrevo às pressas da
padaria Tropikal, comendo alguma coisa rápida antes de ir para o set com o
Karim.
Hoje à noite a gente completa a quarta semana de filmagem, o que significa
que estamos na metade do caminho. O trabalho no filme há muito ultrapassou
as limitações de uma função e estou completamente imerso em cada cena, cada
movimento, cada diálogo... Te contei que estamos reescrevendo muitas e
muitas cenas do filme ao longo das filmagens? Karim aposta muito no
improviso dirigido dos atores e na descoberta emergencial dos espaços -
ensaiamos com câmera várias cenas e a partir dos ensaios redefinimos tons e
passagens de cada cena, de cada espaço. Já virei algumas noites reescrevendo
seqüências para o Karim ler no café da manhã e tchun (!): lá vamos nós para
o set colocar as novidades para acontecer. Isso quando eu não sento num
canto do set para organizar no papel a profusão de idéias que vem das
conversas intermináveis com o Karim, das referências e dos afetos que
carregamos com a gente a cada dia.
Karim nutre uma adorável obsessão por tudo o que faz: cada plano, cada tom
de palavra são pensados e pesados, sentidos, repensados, revistos,
procurados em fragmentos de filmes da coleção de DVDs que ele carrega
consigo. Karim é um exemplar raro daqueles diretores do cinema brasileiro
que tem o costume raro de....ver filmes! E de Jia Zhang-ke, de Hou, de
Fassbinder, de Tsai, de Cassavettes e de Iracema vêm vindo os ares que dão o
corpo e o peso ao que ele vislumbra. Porque o Karim parece fazer este filme
como quem intui um tom, uma sintonia, uma radiação. Desde a escolha do
elenco a coisa se deu assim: Karim olhava para Hermila e nela ali via a
substância que ele procurava. Não importaram os testes e os meses de busca,
a Suely de Karim se chamava Hermila. Hermila Guedes do rosto quadrado, os
olhos verdes e as pernas tortas. Não à toa, nesse processo de preparação com
a Fátima Toledo os personagens foram sendo moldados aos gestos e corpos dos
atores, ganhando seus contornos, seus tiques, e cada vez mais nos entregamos
a encontrar nos atores o lugar e o tom das personagens que tinham sido
escritos antes deles aparecerem. Suely se tornou Hermila e tomou para si o
peso e a responsabilidade de carregar nos olhos um filme inteiro. E como ela
carrega... Hermila, mais do que uma protagonista, foi se tornando a fonte de
luz do filme - uma luz caótica, dura e alegre. Alguém que pode ser um vulto
asiático ou uma pomba-gira num intervalo de frações de segundo. E é isso que
Karim procurava, eu acho: esse desacerto, essa energia incontornável. Ontem
filmamos a cena em que Hermila é expulsa da casa da avó e estou até agora
com um nó aqui no peito. No estômago. Fazer um filme para os sonhos e para o
corpo. Fazer um filme em Iguatu?
Até hoje ouvimos nas ruas a pergunta dos locais boquiabertos: Por quê?
Foi em abril passado que eu comecei a entender, lembra? Quando pisei aqui
pela primeira vez numa visita relâmpago com o Karim e o Walter: Iguatu não
existe. É um nada e ao mesmo tempo é tudo o que existe no mundo. Um desejo
imenso inacabado e uma sujeira de vontades atravessadas, ecoadas, como se
sonhos do mundo todo encontrassem aqui o lugar de se perder...e de deixar as
suas sombras. Iguatu é o deserto e o centro do mundo. E o absoluto e o
imprevisível. Um abismo de cores e luzes frias, de néons que são como a
resposta silenciosa ao chão seco em que se pisa, para o céu lavado ao qual
se olha.
Uma falta que vai além do material, do dinheiro, de empregos, de futuro -
mas um pulso doído que parece ser o tom nos olhos dos mototaxistas, das
meninas bonitas que perambulam ouvindo Britney e forró eletrônico, nas
praças escuras, nas vendedoras das lojas de televisão, no recepcionista do
hotel, no gosto da comida sempre cheia de misturas, moídos e maionese.
Um caos monótono. Uma monotonia que intui o caos. É tudo falso,
fluorescente, é tudo verdadeiro. E a gente vai se impregnando dessa alegria
iluminada por uma tristeza profunda - como aquela melancolia inevitável de
se olhar o mar.
Fazer um filme aqui é como não fazer um filme. É um despedaço e os tempos
longos são pequenos, curtos perto da imensidão. Iguatu não acontece. Karim e
Marcos Pedroso passavam dias e dias olhando a cidade, procurando gestos,
tons, caminhos - entendendo a imagem possível desse formigamento. A história
aqui começou ontem, começou a poucos segundos: não há prédios históricos,
fachadas bucólicas, memórias... Narrar um filme aqui é um desafio do tempo,
contra o tempo e para o tempo. Porque não existem eventos, dados, fatos:
existe Iguatu e só. (...).
Suely-Hermila é esse desejo ambíguo de fugir e de enfrentar - de se
esgueirar nessa cidade viva-morta, e emergir dela como uma contração das
ruas, do ar. Nem meio nem agente - flutuações de um tom é que antes musical
do que sociológico. "Documentar um sentimento", diz Karim. Encontrar a
emoção exata de uma composição apaixonada, às cegas, tateando.
Todo o filme é como a procura dessa sintonia exata em que sobrevive a
vontade, a alegria e a raiva que são de Karim e de Hermila. E Karim grita no
set, pede mais: quase salta na câmera como se algumas imagens precisassem de
seu corpo agitado para poderem surgir. Karim diz que o filme é um filme de
amor... Eu vejo aqui um filme de paixão: feito por um diretor e para um
personagem apaixonados demais por tudo que os cerca. O elenco viveu conosco
na cidade por dois meses. Karim quer que não existe interpretação mas que
exista afeto. E que se afete junto à câmera o tempo dessa cidade. Se Madame
Satã era a imagem do claro-escuro, da raiva e da doçura através das
máscaras, Hermila é a imagem de uma radiação, de um sinal colhido no
espaço-sideral. Um close como uma imagem intergaláctica - foto de um
telescópio apontado para o inverso dos olhos. Vibrações como imagens
colhidas em um deserto de postos de gasolina e luzes frias. De postes
escassos e vultos.
Em pleno sertão cearense, sem chuva e com um céu tão iluminado que parece
tomado por um véu, vive este centro urbano, comercial, com ruas tomadas de
jovens de olhos perdidos e roupas coloridas. Tudo aqui se sorteia, se rifa.
Bingos pelas ruas dão prêmios em dinheiro, DVDs, cestas de sabonetes. Um
sertão com o cheiro da gasolina das motos e dos perfumes agudos das
raparigas. Triste. E alegre como nada mais. Como as placas luminosas e os
neons que competem com as noites de lua. Ou os faróis de pick-ups que cortam
as ruas escuras.
Encontrar nas personagens não a chave do entendimento, mas o mergulho no
vozerio. Um vozerio que atravessa e emana de uma só menina: Suely é a
vontade de ser tudo e de ser porra nenhuma, de amar partir e de querer
voltar. Uma menina só. De sua avó. De sua tia. De suas amigas. De seus
amores. Do choro de seu filho. (...).
Um filme vivido do extremo e na sutileza: como um melodrama, como um filme
de aventura, como um romance de capa-e-espada, como um bang-bang, como uma
ficção científica, como um musical sem música... Tsai, Hou, Jia Zhang-ke,
Denis, Sirk, Fassbinder, Hong, Dumont, Iracema, Wild Bunch e Juventude
Transviada. Que Karim carrega nele todo o tempo como um desejo. E que talvez
na tela se realize em beleza. (...).
Até meados de setembro ainda falta tempo até eu chegar. Agora tenho que
colocar esta carta no correio antes que Karim apareça aqui buzinando o Uno
Branco. A locação e a sua decupagem escondida nos esperam... No mais, o
tempo passando, e essa saudade e desgosto pelo Rio de Janeiro aumentando.
Vontade de voltar ou de me exilar. Passar algum tempo em Portugal escrevendo
ou em um interior perdido. Um sentimento grande de expansão, de sentidos
aguçados, de corpo disposto. Queria você aqui comigo neste momento de
ebulição. Virei uma maquininha de escrever. Estou pensando em escrever uma
carta como essa para ser publicada na Contracampo - acho que pode ser bom.
Karim topou a idéia. Está tudo apenas começando, meu amor...Tenho certeza. E
nossos amigos, todos, também sabem.
Me encha de idéias e planos assim que eu chegar.
Um beijo,
Felipe Bragança
Iguatu, Ceará
Marina, saudades.
Não sei em quantos dias essa distância se transforma, então não sei prever
quando é que vai conseguir receber esta carta que escrevo às pressas da
padaria Tropikal, comendo alguma coisa rápida antes de ir para o set com o
Karim.
Hoje à noite a gente completa a quarta semana de filmagem, o que significa
que estamos na metade do caminho. O trabalho no filme há muito ultrapassou
as limitações de uma função e estou completamente imerso em cada cena, cada
movimento, cada diálogo... Te contei que estamos reescrevendo muitas e
muitas cenas do filme ao longo das filmagens? Karim aposta muito no
improviso dirigido dos atores e na descoberta emergencial dos espaços -
ensaiamos com câmera várias cenas e a partir dos ensaios redefinimos tons e
passagens de cada cena, de cada espaço. Já virei algumas noites reescrevendo
seqüências para o Karim ler no café da manhã e tchun (!): lá vamos nós para
o set colocar as novidades para acontecer. Isso quando eu não sento num
canto do set para organizar no papel a profusão de idéias que vem das
conversas intermináveis com o Karim, das referências e dos afetos que
carregamos com a gente a cada dia.
Karim nutre uma adorável obsessão por tudo o que faz: cada plano, cada tom
de palavra são pensados e pesados, sentidos, repensados, revistos,
procurados em fragmentos de filmes da coleção de DVDs que ele carrega
consigo. Karim é um exemplar raro daqueles diretores do cinema brasileiro
que tem o costume raro de....ver filmes! E de Jia Zhang-ke, de Hou, de
Fassbinder, de Tsai, de Cassavettes e de Iracema vêm vindo os ares que dão o
corpo e o peso ao que ele vislumbra. Porque o Karim parece fazer este filme
como quem intui um tom, uma sintonia, uma radiação. Desde a escolha do
elenco a coisa se deu assim: Karim olhava para Hermila e nela ali via a
substância que ele procurava. Não importaram os testes e os meses de busca,
a Suely de Karim se chamava Hermila. Hermila Guedes do rosto quadrado, os
olhos verdes e as pernas tortas. Não à toa, nesse processo de preparação com
a Fátima Toledo os personagens foram sendo moldados aos gestos e corpos dos
atores, ganhando seus contornos, seus tiques, e cada vez mais nos entregamos
a encontrar nos atores o lugar e o tom das personagens que tinham sido
escritos antes deles aparecerem. Suely se tornou Hermila e tomou para si o
peso e a responsabilidade de carregar nos olhos um filme inteiro. E como ela
carrega... Hermila, mais do que uma protagonista, foi se tornando a fonte de
luz do filme - uma luz caótica, dura e alegre. Alguém que pode ser um vulto
asiático ou uma pomba-gira num intervalo de frações de segundo. E é isso que
Karim procurava, eu acho: esse desacerto, essa energia incontornável. Ontem
filmamos a cena em que Hermila é expulsa da casa da avó e estou até agora
com um nó aqui no peito. No estômago. Fazer um filme para os sonhos e para o
corpo. Fazer um filme em Iguatu?
Até hoje ouvimos nas ruas a pergunta dos locais boquiabertos: Por quê?
Foi em abril passado que eu comecei a entender, lembra? Quando pisei aqui
pela primeira vez numa visita relâmpago com o Karim e o Walter: Iguatu não
existe. É um nada e ao mesmo tempo é tudo o que existe no mundo. Um desejo
imenso inacabado e uma sujeira de vontades atravessadas, ecoadas, como se
sonhos do mundo todo encontrassem aqui o lugar de se perder...e de deixar as
suas sombras. Iguatu é o deserto e o centro do mundo. E o absoluto e o
imprevisível. Um abismo de cores e luzes frias, de néons que são como a
resposta silenciosa ao chão seco em que se pisa, para o céu lavado ao qual
se olha.
Uma falta que vai além do material, do dinheiro, de empregos, de futuro -
mas um pulso doído que parece ser o tom nos olhos dos mototaxistas, das
meninas bonitas que perambulam ouvindo Britney e forró eletrônico, nas
praças escuras, nas vendedoras das lojas de televisão, no recepcionista do
hotel, no gosto da comida sempre cheia de misturas, moídos e maionese.
Um caos monótono. Uma monotonia que intui o caos. É tudo falso,
fluorescente, é tudo verdadeiro. E a gente vai se impregnando dessa alegria
iluminada por uma tristeza profunda - como aquela melancolia inevitável de
se olhar o mar.
Fazer um filme aqui é como não fazer um filme. É um despedaço e os tempos
longos são pequenos, curtos perto da imensidão. Iguatu não acontece. Karim e
Marcos Pedroso passavam dias e dias olhando a cidade, procurando gestos,
tons, caminhos - entendendo a imagem possível desse formigamento. A história
aqui começou ontem, começou a poucos segundos: não há prédios históricos,
fachadas bucólicas, memórias... Narrar um filme aqui é um desafio do tempo,
contra o tempo e para o tempo. Porque não existem eventos, dados, fatos:
existe Iguatu e só. (...).
Suely-Hermila é esse desejo ambíguo de fugir e de enfrentar - de se
esgueirar nessa cidade viva-morta, e emergir dela como uma contração das
ruas, do ar. Nem meio nem agente - flutuações de um tom é que antes musical
do que sociológico. "Documentar um sentimento", diz Karim. Encontrar a
emoção exata de uma composição apaixonada, às cegas, tateando.
Todo o filme é como a procura dessa sintonia exata em que sobrevive a
vontade, a alegria e a raiva que são de Karim e de Hermila. E Karim grita no
set, pede mais: quase salta na câmera como se algumas imagens precisassem de
seu corpo agitado para poderem surgir. Karim diz que o filme é um filme de
amor... Eu vejo aqui um filme de paixão: feito por um diretor e para um
personagem apaixonados demais por tudo que os cerca. O elenco viveu conosco
na cidade por dois meses. Karim quer que não existe interpretação mas que
exista afeto. E que se afete junto à câmera o tempo dessa cidade. Se Madame
Satã era a imagem do claro-escuro, da raiva e da doçura através das
máscaras, Hermila é a imagem de uma radiação, de um sinal colhido no
espaço-sideral. Um close como uma imagem intergaláctica - foto de um
telescópio apontado para o inverso dos olhos. Vibrações como imagens
colhidas em um deserto de postos de gasolina e luzes frias. De postes
escassos e vultos.
Em pleno sertão cearense, sem chuva e com um céu tão iluminado que parece
tomado por um véu, vive este centro urbano, comercial, com ruas tomadas de
jovens de olhos perdidos e roupas coloridas. Tudo aqui se sorteia, se rifa.
Bingos pelas ruas dão prêmios em dinheiro, DVDs, cestas de sabonetes. Um
sertão com o cheiro da gasolina das motos e dos perfumes agudos das
raparigas. Triste. E alegre como nada mais. Como as placas luminosas e os
neons que competem com as noites de lua. Ou os faróis de pick-ups que cortam
as ruas escuras.
Encontrar nas personagens não a chave do entendimento, mas o mergulho no
vozerio. Um vozerio que atravessa e emana de uma só menina: Suely é a
vontade de ser tudo e de ser porra nenhuma, de amar partir e de querer
voltar. Uma menina só. De sua avó. De sua tia. De suas amigas. De seus
amores. Do choro de seu filho. (...).
Um filme vivido do extremo e na sutileza: como um melodrama, como um filme
de aventura, como um romance de capa-e-espada, como um bang-bang, como uma
ficção científica, como um musical sem música... Tsai, Hou, Jia Zhang-ke,
Denis, Sirk, Fassbinder, Hong, Dumont, Iracema, Wild Bunch e Juventude
Transviada. Que Karim carrega nele todo o tempo como um desejo. E que talvez
na tela se realize em beleza. (...).
Até meados de setembro ainda falta tempo até eu chegar. Agora tenho que
colocar esta carta no correio antes que Karim apareça aqui buzinando o Uno
Branco. A locação e a sua decupagem escondida nos esperam... No mais, o
tempo passando, e essa saudade e desgosto pelo Rio de Janeiro aumentando.
Vontade de voltar ou de me exilar. Passar algum tempo em Portugal escrevendo
ou em um interior perdido. Um sentimento grande de expansão, de sentidos
aguçados, de corpo disposto. Queria você aqui comigo neste momento de
ebulição. Virei uma maquininha de escrever. Estou pensando em escrever uma
carta como essa para ser publicada na Contracampo - acho que pode ser bom.
Karim topou a idéia. Está tudo apenas começando, meu amor...Tenho certeza. E
nossos amigos, todos, também sabem.
Me encha de idéias e planos assim que eu chegar.
Um beijo,
Felipe Bragança




