Jornalista desvenda a época em que jovens caóticos e idealistas perverteram o cinema americano.
Taxi Driver
“O que eu descobri, cara, é que esta é uma indústria nojenta.”
Bob Rafelson, diretor e produtor
Com dez anos de atraso, foi lançado no Brasil, no final de 2009, o livro Como a Geração Sexo, Drogas e Rock‘n’Roll Salvou Hollywood (Easy Riders, Raging Bulls, Editora Intrínseca; tradução de Ana Maria Bahiana). Nas 500 páginas da obra, o autor, o jornalista americano Peter Biskind, adentra os bastidores, os quartos de hotéis, os estúdios de filmagens, as mansões de diretores, produtores, roteiristas e atores e remonta o período que virou de ponta-cabeça a maior indústria de cinema do mundo do final dos anos 60 até o início da década de 80.
Neste período Hollywood foi invadida pela contracultura e a sua estrutura de produção de filmes em série foi abalada com o sucesso de obras polêmicas capitaneadas por jovens diretores como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Hal Ashby, Robert Altmann, Peter Bogdanovich e muitos outros. Inspirados principalmente pelo cinema-arte europeu, eles fizeram fama e fortuna produzindo filmes autorais que os transformaram em estrelas, a tal ponto de fazer com que os grandes estúdios abrissem mão de parte do seu poder e permitissem que os diretores praticamente fossem “donos” dos filmes em que trabalhavam, estourassem em milhões de dólares os orçamentos das produções e até mesmo tivessem a palavra final sobre a edição e montagem. Algo impensável até então na indústria norte-americana, quando diretores ou roteiristas, com raras exceções, não passavam de simples empregados dos grandes estúdios.
O período se encaixou perfeitamente no espírito revolucionário da contracultura norte-americana, quando muitos jovens passaram a questionar (na música, no cinema, na literatura, na política, etc.) valores pré-estabelecidos socialmente. Era o confronto da juventude contra os adultos, que no cinema estadunidense ficou marcado pelas rusgas entre a Velha e a Nova Hollywood.
Bonnie & Clyde
Mil ideias na cabeça
O ponto de partida para o livro de Biskind são Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas (1967), do diretor Arthur Penn, e Easy Rider – Sem Destino (1969), que foi dirigido por Dennis Hopper. Produzidos com baixo orçamento, inesperadamente os filmes se tornaram grande sucessos de bilheteria, principalmente por estarem em sintonia os ideais que pipocavam pelos Estados Unidos. Os donos dos grandes estúdios não entendiam e não conseguiam traduzir para as telas de cinema o que estava acontecendo nas ruas. Bonnie & Clyde e Easy Rider fizeram a conexão e a partir daí abriu-se uma porta imensa, por onde passaram uma série de pessoas com “uma câmera na mão e mil ideias na cabeça”.
Através da obra de Biskind ficamos conhecendo como foi processo caótico de produção de filmes hoje clássicos como O Poderoso Chefão I e II (1972 e 1974), O Exorcista (1973), Chinatown (1974), Taxi Driver (1976), Apocalypse Now (1979) e muitos outros. Mas, mais do que isso, mergulhamos no nada glamuroso submundo de Hollywood marcado pela competição muitas vezes nada leal entre diretores, roteiristas, produtores e atores. Entramos de penetra nas festas regadas por quilos de cocaína, espiamos as orgias e acompanhamos o movimento de ascensão e queda de muitas personalidades que, de uma hora para outra se tornaram estrelas e acabaram não sabendo lidar com o que de bom e ruim vem no rastro da fama e de uma conta bancária de milhões de dólares.
Um dos grandes méritos do livro é o de conseguir resgatar esse capítulo da história de Hollywood e apresentá-lo de tal forma que ele esteja conectado com os fatos políticos que estavam acontecendo nas ruas norte-americanas. Se a Nova Hollywood só aconteceu por causa da contracultura, por outro lado esse furacão de rebeldia na Meca do cinema mundial acabou se transformando em uma leve brisa a partir do final dos anos 70, quando os ares conservadores e reacionários que tomaram conta da sociedade estadunidense começaram a soprar e se consolidaram nos governos Ronald Reagan e George Bush, nos anos 80 – e que são tão bem exemplificados pelos filmes da série Rambo, por exemplo.
Tubarão
Início dos blockbusters
Em Hollywood, esse giro de 180º, segundo Peter Biskind, teve início em filmes de sucesso como Tubarão (1975) e Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977), ambos de Steven Spielberg, e Guerra nas Estrelas, de George Lucas. Curioso é que os dois diretores circulavam em meio à Nova Hollywood, porém o seu modo de produção se assemelhava bem mais ao antigo modelo hollywoodiano. E, sobretudo, eles fizeram filmes que se tornaram as maiores bilheterias daquela década.
Como definiu o autor do livro, “Tubarão mudou a indústria para sempre. (...) Mais do que isso, Tubarão despertou o apetite corporativo por lucros rápidos, o que significa que dali para a frente os estúdios queriam que todo filme fosse Tubarão. De certa forma, Spielberg foi o cavalo de tróia através do qual os estúdios recobraram o poder”. Isso significa dizer que os estúdios de cinema estavam fartos de diretores e roteiristas egocêntricos e viciados e até mesmo o público estava cansado de filmes com narrativas complicadas, finais infelizes, personagens de caráter moral duvidoso e de comportamento violento. A contracultura dos anos 60 estava em queda e, com ela, a Nova Hollywood também.
Como a Geração Sexo, Drogas e Rock‘n’Roll Salvou Hollywood é instigante do começo ao fim. Não apenas pelos fatos apresentados, mas pela forma com que são contados. A maioria das declarações bombásticas e os acontecimentos surreais foram ouvidos por Peter Biskind da própria boca das principais personalidades envolvidas em centenas de entrevistas gravadas. Para os brasileiros, a obra ainda tem a vantagem de ter sido traduzida por Ana Maria Bahiana, jornalista muito bem antenada com a época retratada no livro e especializada em música e cinema.
Um período único na história de Hollywood que Steven Spielberg definiu com propriedade. “Os anos 70 foram a primeira vez em que as restrições de idade foram abolidas. Jovens tiveram a permissão para tomar tudo de assalto com toda a sua ingenuidade e toda a sua sabedoria e todos os privilégios da juventude. Foi uma avalanche de ideias novas e ousadas. E, por isso, os 70 tornaram-se um marco”.
Como a geração sexo-drogas-e-rock’n’roll salvou Hollywood– Easy Riders, Raging Bulls, de Peter Biskind
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| Fonte |
Tradução de Ana Maria Bahiana520 páginasR$44,90ISBN 978-85-98078-67-0 EAN 9788598078670 (Capa laranja, Robert De Niro)ISBN 978-85-98078-68-7 EAN 9788598078687 (Capa azul, Peter Fonda)Outras informações:Editora IntrínsecaJuliana Cirne – julianacirne@intrinseca.com.br55 21 3206-7403
ASSITA AO DOCUMENTÁRIO DO LIVRO Como a Geração Sexo, Drogas e Rock‘n’Roll Salvou Hollywood / completo: http://bit.ly/12PrbgX (em 8 partes/ youtube/ em inglês)
Baixe o pdf do livro: http://glo.bo/14oC4rB (trecho introdutório)
